domingo, 28 de outubro de 2007

Sanatórios à venda no Caramulo

Antiga estância sanatorial continua à espera do futuro

Placas a dizer “vende-se” são parte integrante da paisagem do Caramulo. Dos dez antigos sanatórios votados ao abandono desde a erradicação da tuberculose, em meados dos anos 70, três estão para transacção: o sanatório Bela Vista, que nos tempos da doença albergou marinheiros e pertence a um médico de Coimbra, a “Antiga Zona” ou Bloco Operatório, propriedade de uma empresa de Albergaria, e o Sanatório Central, pertença de empresários de um café-restaurante da vila. O Grande Sanatório, propriedade da família Lacerda, continua à espera de um investidor que, com os herdeiros do fundador da estância sanatorial, estabeleça uma parceria a fim de dar um destino rentável ao edifício.

Dos outros seis sanatórios abandonados e sem destino, há um que dá especial dor de cabeça ao presidente da Junta de Freguesia: o Sanatório Infantil, pertença do Estado. Há seis anos que Pedro Adão procura obter dos sucessivos governos respostas e soluções para o edifício. Durante cinco anos e sete meses, as cartas enviadas por Pedro Adão não tiveram eco. Em Junho, porém, na volta do correio, o presidente da Junta de Freguesia do Guardão recebeu a carta por que tanto ansiava. Sem uma resposta definitiva, dizia, no entanto, que “brevemente, o caso do sanatório infantil irá ter uma solução”. Depois da carta de resposta do Governo, e porque já lá vão cinco meses, Pedro Adão voltou a escrever. Sem troco, até hoje.

O desamparo não se verifica, contudo, apenas nos sanatórios. Casas comerciais e de habitação continuam à espera de um qualquer futuro. As propriedades deixaram de ser cuidadas, os jardins tratados, as sebes cortadas. “Para isso”, diz Pedro Adão, “não há remédio. A Junta de Freguesia não pode e não deve cuidar de património privado”. O futuro do Caramulo passa, segundo o autarca, pelo turismo. Que turismo, é pergunta a que ninguém consegue ainda responder. Para a terra estão pensados viveiros e um parque de campismo com “bungalows”, projecto orçado em 3 milhões de euros e chumbado pelo Peter, o anterior Quadro Comunitário de Apoio (QCA). “A alternativa”, refere o autarca, “é tentar que seja aprovado no próximo QCA”. Para o próximo ano, está também previsto um novo tapete para a estrada que liga o Campo de Besteiros ao Caramulo, “facilitando deste modo, o acesso dos turistas à vila.”

Entretanto, o futuro da antiga estância sanatorial vai sendo adiado. Aquela que foi a primeira vila do País a ter central telefónica e rede de saneamento básico espera por resoluções que lhe devolvam a dignidade e o prestígio de outros tempos. Os valores pedidos pelos antigos edifícios clínicos oscilam entre os 150 mil e os 400 mil euros.

“Ninguém pega nisto”

O sonho de voltar a ver a avenida que, com os seus nove metros de largura, rasga o Caramulo – uma inovação para 1920, época em que foi construída – cheia de carros a circular, é partilhado por muitos habitantes da vila. É o caso de António Amorim: chegou ao Caramulo ainda petiz. Viveu muito. Viu outro tanto. Lembra-se de tudo “como se fosse ontem”. Aos 71 anos de idade, olha para a antiga estância com algum desgosto. “Ninguém pega nisto”, diz, enquanto nas mãos o chapéu vai rodando por entre os dedos nervosos. “Os sanatórios estão ao abandono. Os comerciantes andam a tinir. A rapaziada nova vai-se embora porque não há trabalho”. E lembra-se de outros tempos. Tempos em que, aos 20 sanatórios, recolhiam doentes numa taxa de internamentos que ultrapassou, anos a fio, a escala do milhar: “Isto naquela altura é que era Caramulo. Era um mundo. Apesar dos ordenados de miséria, não faltava trabalho nem gente. Havia até senhoras para despejar os penicos”, recorda o antigo caramulano.

À cabeça de António Amorim ocorrem ainda outras lembranças: com apenas 13 anos, andou a transportar pedras para calcetar a rua principal da vila. O “Ti Zé Veneno” pagava-lhe cinco tostões por dia. Um ano depois, acarretava massa para a construção do Grande Sanatório. Passou, aliás, por todos eles, sempre ligado às obras. Primeiro, “as de grande envergadura”. Depois, “as de manutenção”, como quando era preciso, depois de um doente morrer, caiar o quarto e desinfectá-lo com formol. De sorriso tímido desenhado no rosto, António Amorim conta como “mandavam os doentes todos sair e, com a ajuda de uma máquina, desinfectavam o aposento pelo buraco da fechadura.” Ou de quando se falava à boca pequena da presença de Salazar na vila: “Ninguém o via: ele fechava-se com o Dr. João (Lacerda). O presidente do Conselho de Ministros mandou até fazer cá uma casa Dizem que foi para se tratar da doença.”, comenta António. A casa, onde havia uma linha telefónica directa ao posto dos correios, pertence agora à “Americana”, uma senhora que esteve emigrada.

O mundo de António Amorim – o tal “mundo que era o Caramulo” – não existe já. O Sanatório Salazar deu lugar ao Hotel do Caramulo. Dois outros sanatórios foram transformados em casas de habitação. Outros três foram convertidos em lares para idosos. E outro, ainda, é agora a morada de gente com diagnósticos psiquiátricos. Aconteceu também a demolição de alguns. Os restantes esperam um projecto, uma solução airosa para as paredes por dentro vazias que, se tivessem olhos e ouvidos, muito teriam que contar.

(reportagem integral na edição impressa do Jornal do Centro ou em http://www.jornaldocentro.pt/)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Bem-vindos ao Anoitecer ao Tom Dela

Uma hora de música portuguesa é o que o espera no começo de mais uma edição do Anoitecer ao Tom Dela. Após as 21h, damos a volta ao mundo através das canções. Depois das 22h, na rubrica Mil e Duas Noites, o Daniel Abrunheiro conta-lhe uma história que tem por título "A Casa é das Mulheres":

"Nunca mais lá voltei. Nunca mais lá voltarei. Não podemos regressar a um sítio onde fomos felizes e depois deixámos de ser. E eu fui feliz naquela casa de madeira. No lar, ardia a perfumada lenha de oliveira. Cá fora, da névoa fantasmática eriçavam-se copas agudas.

Nas tábuas pregadas da parede estavam os alimentos enlatados. Eu alinhava-os como se fossem livros. De quinze em quinze dias, saía para me abastecer de comida, vinho e jornais. Bebia café de máquina na vila. Depois, voltava àquela solidão voluntária. E eu era feliz.

Deitava-me muito cedo. Baixava o som do rádio para ouvir o vento da noite, que corria e uivava pelo mundo como um cão transparente. Antes de me deitar, reforçava o lume. O vento e o fogo cantavam para mim. O mel do cansaço cerrava-me os olhos. E sem sonhos eram as minhas noites.

Levantava-me antes da primeira luz. Saía para respirar o frio. Fazia algumas flexões, bebia água do poço e fumava meio cigarro sem travar o fumo. Depois, reentrava para fazer café fresco. Fritava toucinho e ovos, abria um frasco de espargos e torrava pão. Ao lume, fervia já a água na panela negra. Acabava de comer, punha um pedaço de carne salgada na panela e levantava a tampa do piano.

Tocava hora e meia. Ia compondo frases esparsas, verificando a sinceridade delas. Descia a tampa do piano, sentava-me à mesa, arredava a louça suja e fixava na pauta a música possível de cada dia.

Assim era tudo, assim era a minha vida. Até que as mulheres apareceram. Eram três. Eram transparentes. Vi-as ao pé do poço. Levitavam. Não olhavam umas para as outras. Não olhavam nada. Eram cegas e brancas. Tinham cabelo até ao chão. Rodaram as três cabeças e fixaram-me nos olhos. Nos meus olhos.

Fugi. Não voltei a casa. Corri pela floresta. Levava uma pressa cardíaca de coelho. Na vila, pedi aguardente. Não fui capaz de contar nada a ninguém. Conto agora.

Vivo na cidade. Aqui, os fantasmas são feitos de gente viva. Vivem no ar alto dos prédios. Entristecem dentro de carros eléctricos. Mas não me olham nos olhos.

Vivo mal. Durmo dentro de cartões frigoríficos. Gosto das colunas gregas do Teatro Nacional. Ouço música interior. Nunca mais toquei piano. Nunca mais tocarei.

Canto para mim mesmo. Resta-me isso. Às vezes, vou ver o rio. Há barcos estrangeiros. Fiquei a dever a aguardente no café da vila. Mas não voltarei. Elas tratam da casa".

Às 23h, na rubrica Filhos da Madrugada, eu falo-lhe de alguma vida daquele que é considerado um dos Beatles mais carismático: John Lennon.

Anoiteça connosco. Fique ligado a nós até que seja amanhã.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Bem-vindos ao Anoitecer ao Tom Dela

A história que hoje lhe traz Daniel Abrunheiro tem por título "Clave de Sol". É contada em dez parágrafos musicais e reza assim:

1) Era uma vez um homem que vivia numa casa amarela e branca. Tinha as coisas dele dentro de casa e também no barracão de madeira do quintal. O resto do quintal subia no ar: uma laranjeira, uma cerejeira, uma figueira e couves de pé alto. Ele tinha um cão, que só prendia de noite. Manhã cedo, soltava o cão.

2) Iam os dois, cão e homem, à vida deles. O trabalho do homem era de cantoneiro. Desobstruía valetas, fazia e tapava furos na terra, reparava vedações, fazia recados ao Presidente. Às vezes, fazia mesmo de coveiro. A vida ia e vinha e ia todos os dias.

3) Às cinco da tarde, de verão como de inverno, o tempo voltava a ser dele. O cão acompanhava-o todo o dia. Ficava à porta da Junta quando o homem ia lá dentro, retomava a sombra do homem quando ele saía. Às cinco e vinte da tarde, o dono da taberna não se importava de ver o cão entrar loja adentro com o homem.

4) O homem merendava carapaus fritos. As espinhas, não as dava ele ao cão. As cabeças, sim. Por baixo da mesa, o cão ia comendo as cabeças uma a uma. Ouvia o dono falar com o taberneiro, mas as palavras não o prendiam. A espessuras delas, sim. Era como se os homens cantassem. O cão temia o canto da irritação (o futebol) e gostava do ramerrame da paz (a agricultura).

5) O taberneiro dava ossos ao homem. O homem pagava a merenda, pegava no saco e saía. O cão já estava à porta. No inverno, já era noite por essa hora. O homem prendia o cão e dava-lhe os ossos. No verão, não lhe dava logo os ossos. Deixava-o solto até à lua. Só então o prendia e lhe dava os ossos.

6) Um veterinário pago pela Junta vinha todos os meses. O homem aproveitava para lhe mostrar o cão. O doutor ou dizia “Tudo bem” ou lhe dava qualquer coisa tirada da maleta. E as vidas do homem e do cão poderiam trocadas uma pela outra, de tal modo seguiam juntas.

7) Veio então o dia em que o homem estava a ajudar à manobra de um catrapilo em obras na berma da estrada. O cão pôs-se a seguir, por mera curiosidade, uma lagartixa ferida até meio da via. O carro não conseguiu matá-lo logo. O cão foi atirado uns seis metros. Tinha as patas da frente como galhos depois de um vento mais duro.

8) A cabeça do animal tinha sido tocada do lado esquerdo, o olho desse lado já estava vazio. Um fio de sangue indicava o lugar da boca. O cão esperou que o homem chegasse junto dele, como sempre faziam ambos: o cão, esperar; o homem, chegar.

9) Mas primeiro o homem falou com o dono do carro. O condutor teimava que o pára-choques e a pintura iriam custar não sabia o cão quanto. O cão, dessa última vez, deu atenção às palavras do dono. E o dono cantou assim:

10) – Ó homem, vá-se embora já, que eu rebento-lhe o resto do carro e a cara toda! O do carro foi-se embora. O cão gostou muito do que ouviu. O homem baixou-se para o cão e disse-lhe assim: – Meu cãozito, meu cãozito. Mas o cão já não ligava às palavras. Tudo era, outra vez, apenas música.

A narrativa "Clave de Sol" vai para o ar depois das 22h na rubrica Mil e Duas Noites.

Depois, na rubrica Filhos da Madrugada, eu falo-lhe do inglês Jon Anderson.

Até lá, há música português e o Dia a Dia Cultural entre as 20h e as 21h. E música do mundo das 21h às 22h.

Anoiteça connosco. Faça sua a nossa noite.

sábado, 20 de outubro de 2007

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Bem-vindos ao Anoitecer ao Tom Dela

Anita O´Day nasceu no dia 18 de Outubro de 1918, nos Estados Unidos. É desta cantora de jazz que vamos falar, hoje, na rubrica Filhos da Madrugada. É para ouvir a partir das 23h.

Antes, ou seja, entre as 22h e as 23h, Daniel Abrunheiro conta-lhe uma história com o título "O Náufrago da Chuva".

"Era uma vez um país onde a chuva era tão dada a eternidades, que as pessoas se deitavam cedo para sonhar com o Sol. Depois, é claro que aquilo passava. Naquele país, as coisas passavam para que tudo fosse para sempre. Foi nesse país que nasci, é nesse país que vivo.

Chamo-me Ismael. Sim, Ismael como o náufrago do romance Moby Dick. Não sou marinheiro. Gostaria de ter sido marinheiro. Sou cobrador de seguros. Chamo-me Ismael e sou cobrador de seguros. A minha ex-mulher é enfermeira. Trocou-me por um médico. Não posso criticá-la.

Se eu fosse marinheiro, não haveria de cobrar nada a ninguém. Nem dinheiro, nem explicações, nem remorsos, nem recordações. Equilibrava-me na firme inconstância da ondulação. Dava a cara a curtir ao sal e ao vento. E não sonhava com o Sol porque aí estava ele, na pele do peixe que esfaqueia de repente a tona d’água.

Tenho o meu tempo. Entre cobranças, vou à Brasileira, encomendo um copo de café-com-leite e um pãozinho-de-manteiga e leio um pouco. Gosto de ler relatos de crimes famosos. Aqueles de que gosto mais são os homicídios do século XIX na Inglaterra. Até já percebo um pouco do assunto, valha-me Deus.

Nunca li o romance Moby Dick. Vi o filme e gostei. Pode ser que ainda leia o Moby Dick. Tenho tempo para ler. Gosto mais dos crimes ingleses porque lá também chove muito. E faz nevoeiro. Quando bebo o meu café-com-leite e leio, é como se tudo fosse mesmo para sempre. Dá uma espécie de segurança. De segurança e de impunidade.

Mais ou menos uns dois anos depois de Emília me ter deixado, deixei eu de me cedo para sonhar com o Sol. Até posso dizer que, em determinado sentido, deixei de ser daqui, deste país. Mudei de chuva. Tornei-me inglês, por assim dizer. Na montra da livraria, perto da Brasileira, estava um volume de relatos de crimes ingleses do século XIX.

Matriculei-me numa escola nocturna de línguas e apliquei-me no inglês. Já mandei vir livros de Inglaterra. Tenho um bom dicionário. Lá fora chove, depois passa e depois volta a chover. Tenho um caderno de mercearia no qual aponto os nomes e as datas. Ao contrário da vida, alguns crimes têm solução.

Ninguém me pergunta, mas se me perguntassem, eu só teria esta resposta: – Nos barcos também há tempo para ler. Fazia o meu quarto de serviço, descia ao beliche e lia as glórias e os desaires da Scotland Yard. Amolecia no chá os duros biscoitos salgados, comia a minha lata de carne e bebia um quartilho de rum. E não pensava em Emília nem lhe escrevia o nome no caderno de mercearia.

Pus dinheiro de lado para uma viagem a Londres. A ideia era fazer o circuito de Whitechapel, por onde Jack o Estripador exerceu a sua cutelaria inexplicável e inexplicada. Mas não, nunca irei a Londres. É melhor imaginar do que ver. É melhor imaginar do que viver.

Chamo-me Ismael e nunca li o romance Moby Dick. A história é contada na primeira pessoa por um marinheiro, o único sobrevivente do naufrágio que resultou da obsessão do capitão pela baleia branca. Chamo-me Ismael e sou cobrador de seguros. Não sou nenhum náufrago."

À história, juntámos música. O resultado chama-se Mil e Duas Noites.

Até às 10h, há duas horas de música: portuguesa - entre as 20h e as 21h - e do resto do mundo - entre as 21h e as 22h.

Anoiteça connosco. Ilumine a nossa noite.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Bem-vindos ao Anoitecer ao Tom Dela

Uma história, contada em dez parágrafos musicais, com o título "Fruto do Tempo".

"Exercia no mundo uma personalidade cheia, redonda e aromática como um fruto. Chamava-se João, mas tinha usado outros nomes durante outros negócios, noutros anos. Tinha tido outras vidas, não cedendo nunca, porém, a outra personalidade que não a dele, aromática, redonda, cheia. O único grande problema é que o Tempo é maior ladrão de fruta da história dos quintais.

João voltou a ser João quando se aposentou. Na capital da nação, combinou com o banco uma remessa mensal de dinheiro para o posto de Correios da vila. Chegou à casa no extremo da localidade, abriu as janelas, filmou com o olhar a poeira suspensa da solidão e depois pegou lume no lar da cozinha. O lume subiu no ar propício da pedra mais negra.

João tornou-se senhor João. Pagava sem ficar a dever. O funcionário dos Correios espalhou com discrição o boato verdadeiro de ele receber uma reforma sem falta e com fartura. O senhor João tornou-se estimado até por viúvas improváveis que o olhavam de lado no café como peixes cozidos sem sal mas com pimenta.

A vila, derramada na encosta da serra como um presépio decadente, vivia de adiamentos como uma adolescente perpétua. Até um funeral se alcandorava ao estatuto de novidade. Os baptizados aconteciam longe. No Verão, chovia. No Inverno, os rebanhos enferrujavam como dobradiças miniaturais.

O senhor João recusava a tristeza por estratégia. Tinha andado embarcado pelos mares do Sul, mas tal dimensão não a podia espalhar o funcionário dos Correios. O senhor João, quando Johnny ou Jimmy, tinha vivido outras latitudes, respirado outras longitudes, comido outros cocos e sorrelfado outros diamantes. Era, ao lume, sozinho, uma enciclopédia muda de si mesmo, como aliás toda a gente ou é ou acaba por ser.

Uma manhã de nevoeiro, no posto dos Correios, o senhor João não recebeu apenas a mensalidade. Havia uma carta. Trazia estampados mais carimbos do que selos. E trazia, dentro, o retrato fiel do desengano. Dizia a carta: “Estejas onde estiveres, não deixas de ser meu pai. Quando aí te aparecer, seja onde for, não serei teu filho.”

O senhor João não teve de reler a carta para compreender que a vida que ele dera, noutra vida, lhe viria cobrar, por morte, a própria vida. Queimou a carta no lar da cozinha e esperou pelo filho mortífero.

Esperou um inverno inteiro. A primavera amadureceu depressa de mais, tornou-se outono antes de um fósforo. Já a nova neve se lhe antecipava nas asas do nariz quando o senhor João, ao lume, acordando da letargia única da reforma, disse em voz alta: – O caraças!

Deixou de dormir em casa. A barraca da lenha, que subia a vertente da serra por arquitectura de traves de pinhos, fornecia ao observador um farol de vigília. Deixou de cuidar do cão. Levou latas de peixe e conservas de fruta. A água corria da pedra. A mão era quanto chegava para colhê-la.

O filho nunca veio. Quem veio, foi um assassino incompetente. Entrou o contratado à bruta pela casa. Circulou pelo lar apagado. Disse obscenidade em voz sem registo. Quando o assassino quis sair, não saiu. O senhor João tinha voltado a ser Jimmy. Ou Johnny. Ou o mesmo homem que, como um raro fruto, se deixa apanhar apenas por quem quer, deixando apenas, nesta história de rádio, não mais que um aroma".

Daniel Abrunheiro começa a contar a história às 22h, na rubrica Mil e Duas Noites.

Alguma vida e alguma obra de um senhor chamado Steve Miller vão também passar pela antena.

É na rubrica Filhos da Madrugada que vai para o ar entre as 23h e as 24h.

Até lá, entre as 20h e as 22h, pode ouvir o Dia a Dia Cultural, uma hora de música portuguesa e, ainda, uma hora dedicada à música do mundo.

Parece-lhe bem?

Então, junte-se a nós em 91.2 FM ou em http://www.emissoradasbeiras.radios.pt/

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Anoitecer ao Tom Dela, edição de terça-feira, dia 16 de Outubro

João Inês Vaz é professor catedrático de História e Arqueologia na Universidade Católica de Viseu. Ex-Governador Civil de Viseu, acaba de apresentar uma obra que faz o leitor “regressar” aos tempos da conquista e da administração romanas destas paragens.

“Lamego na Época Romana, Capital dos Coilarnos” é o título que nos levou ao encontro deste historiador a quem, segundo o próprio, “nunca a política impediu de fazer investigações”.

(entrevista publicada na edição impressa do Jornal do Centro e online em http://www.jornaldocentro.pt/)

João Inês Vaz é o convidado da rubrica Interiores. A conversa vai para o ar depois das 21h.

Após as 22h, na rubrica Mil e Duas Noites, há uma história para ouvir pela voz de Daniel Abrunheiro.

Às 23h, na rubrica Filhos da Madrugada, falo-lhe um pouco do muito que é Paul Simon.

Mas o Anoitecer ao Tom Dela começa às 20h. Música em português, o Dia a Dia Cultural e a empatia do Daniel Abrunheiro estão em antena a partir dessa hora.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Ena Pá! O Manuel João Vieira falou com o Anoitecer ao Tom Dela

Fotografia de Eduardo Vasconcelos

Os Ena Pá 2000 estiveram em Viseu para um concerto no Teatro Viriato. Depois da actuação, o carismático líder da banda, Manuel João Vieira, dedicou-se a conhecer a noite da cidade de Viriato. Com fama de acordar tarde e mal disposto, o vocalista dos Ena Pá falou connosco ao meio-dia. Apesar da ressaca, o humor e a ironia foram parte constante da conversa.

A sala do teatro Viriato recebeu, no passado dia 3 de Outubro, duzentos bem-comportados aficionados dos Ena Pá 2000. Segundo Manuel João Vieira, fundador da banda, que não está habituado a tocar para pessoas “tão sentadas”, o ambiente aqueceu à medida que o concerto foi decorrendo.

De acordo com o carismático vocalista de um grupo (re)conhecido pela irreverência e muito acostumado a tocar para “multidões embriagadas”, alguns dos temas interpretados em palco foram improvisados durante a actuação. O eterno pré-candidato à Presidência da República estava bem informado acerca de Viseu. Sabia, por exemplo, que a cidade está colocada entre aquelas em que existe uma melhor qualidade de vida. Mas deixa o recado carregado de ironia: “Se fosse presidente da Câmara Municipal, travava a descaracterização da cidade”. O centro de Viseu, segundo Manuel João Vieira, “está à mercê da cobiça dos empreiteiros, enquanto alguns dos edifícios mais emblemáticos estão a ser transformados em instituições bancárias”.

Enquanto pedia uma água mineral, Manuel João Vieira foi explicando que continua a sofrer de “sofreguidão e irreverência”. Reverência, no entanto, “só ao público”. O líder dos Ena Pá 2000 diz não ter o “hábito nocivo de lamber botas” e que, hoje em dia, se regressou ao “compadrio e à cunha”.

Quando confrontado com a informação da sua inteligência e cultura, Manuel João diz que muitos dos seus neurónios “foram já queimados por causa das bebedeiras”. Em tempos, ainda pensou ser engenheiro agrónomo, mas não se arrepende de ter escolhido a vida artística. Para ele, “o humor ainda é uma arma num país profundamente surrealista que se leva demasiado a sério”.

Também artista plástico, afirma-se cansado de “ser colado a uma imagem de mau rapaz”. E diz que, “se não precisasse de dinheiro, preferia dedicar a vida à pintura”. Mas acrescenta: “Depois ia para as tabernas cantar”.

Manuel João Vieira, mais velho do que antes, mas com a irreverência crítica e atenta de sempre, sublinha que nunca se vestirá de “preto como os sacerdotes da arte” e que a sua forma de reagir a esses códigos é com violência irónica. O carismático líder dos Ena Pá 2000, é o convidado da rubrica Tu Cá, Tu Lá. A conversa vai para o ar depois das 21horas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Sangue pela vida de um menino

Encontrar um dador de medula compatível com uma criança de 11 anos, internada no Hospital Pediátrico de Coimbra, é o objectivo da recolha de sangue que vai decorrer no Posto de Turismo de Tondela, no próximo domingo, 7 de Outubro, entre as 9h e as 13h.
© Arno Minkinnen

Em Junho passado, foi diagnosticada ao “Pedro” (nome fictício) uma leucemia.

Salomé Almeida, porta-voz desta causa e amiga da família, conta que os pais de “Pedro” – jogador de futebol, capitão da equipa de futsal da sua freguesia, no concelho de Tondela, melhor aluno da turma e “menino adorável”, foram confrontados com a notícia da doença depois de a mãe ter encontrado no corpo da criança uma mancha.

De início, a mãe de “Pedro” julgou ser uma marca provocada pela alça da mochila. Mas quando a essa mancha se juntaram outras, teve um “mau pressentimento” e correu para Coimbra, onde um médico do Hospital Pediátrico lhe deu a terrível notícia: o menino sofria de leucemia e precisava com urgência de um transplante de medula óssea.

A primeira opção era extrair as células do cordão umbilical, congelado há dois anos, aquando do nascimento da irmã de “Pedro”. Mas depressa sobreveio a desilusão, já que as células não eram compatíveis.

A segunda opção foi procurar alguém geneticamente compatível com “Pedro” na base de dados internacional de dadores de medula óssea. Nova decepção, pois não havia ninguém compatível com o menino.

Foi então que Salomé Almeida, responsável pelos Jogos Desportivos do Concelho de Tondela, na freguesia onde mora o “Pedro”, se dirigiu ao Centro de Histocompatibilidade de Coimbra para se informar sobre o que era necessário fazer para que a equipa do Centro se deslocasse a Tondela. Eram necessários, à partida, pelo menos 50 dadores.

Salomé reuniu muito mais pessoas do que esse mínimo e, no próximo domingo, à equipa do Centro de Histocompatibilidade juntam-se sete enfermeiros do concelho de Tondela, que voluntariamente vão recolher o sangue dos possíveis dadores que aparecerem no Posto de Turismo de Tondela. Entretanto, “Pedro” divide com uma menina com o mesmo problema dele um quarto no Hospital Pediátrico de Coimbra, onde recebe tratamentos de quimioterapia e transfusões de sangue. O pai, que deixou de trabalhar para poder acompanhá-lo, dormita numa cadeira ao lado do filho.

O ex-pintor de carros por conta própria tem, desde que tudo começou, sido incansável no combate à doença do filho, não falhando um único cuidado segundo indicação médica. A mãe de “Pedro”, que continua a trabalhar para que algum dinheiro vá entrando em casa, desdobra-se entre o emprego, a irmã de “Pedro”, uma bebé de dois anos, e as viagens a Coimbra.

No entanto, esta família não pede qualquer ajuda financeira. Suplica às pessoas para que se mobilizem no sentido de encontrar um dador de medula óssea para que o “Pedro” vença a doença. “A forma de ajudar é simples”, diz Salomé. E explica como: “ Basta que se desloquem em massa ao Posto de Turismo de Tondela, onde será feita a colheita de sangue, que depois será analisado e guardado numa base informática nacional e internacional.” Em caso de sucesso, isto é, “se algum desses dadores for identificado como compatível, será feita uma colheita a partir da medula óssea de células progenitoras colhidas no interior dos ossos pélvicos, o que requer apenas uma anestesia local e cerca de 24 horas de internamento.”

Se a iniciativa solidária do próximo domingo em Tondela vier a encontrar um dador compatível, o transplante é feito. Se tudo correr bem, o “Pedro” salva-se, volta a crescer-lhe o cabelo, e poderá, num período breve, voltar a ser uma das estrelas dos Jogos Desportivos de Tondela, como capitão da equipa da sua terra.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Edição de quarta-feira, dia 3 de Outubro de 2007

Sejam bem-vindos ao Anoitecer ao Tom Dela.

Vamos começar pelo fim do programa: O Filhos da Madrugada de hoje é para cantar em francês. O artista da noite chama-se Georges Brassens. Cantor, compositor e intérprete, Brassens nasceu há 86 anos e morreu há 26. Com esta curiosidade: Outubro foi o seu mês de nascimento e o seu mês de partida. Mais exactamente: 22 de outubro de 1921 e 29 de Outubro de 1981. Tinha apenas sessenta anos. Merecia ter vivido mais quem tanto deu de si à própria vida.

CANÇÃO 0001 CHANSON POUR L’AUVERGNAT

2 A mãe de Georges Brassens era uma católica devota. O pai, não. Era livre-pensador. Mas pai e mãe tinham em comum um gosto apurado pela música e pelas canções. O pequeno Georges passou a infância a ouvir cantar. Não admira, pois, que desse no que deu.

CANÇÃO 0002 JE ME SUIS FAIT TOUT PETIT

3 As duas paixões artísticas de toda a vida foram para Brassens a música e a poesia. O cantor francês sintetizou-as maravilhosamente na forma natural em que poesia e música se casam: a canção. Um exemplo: na juventude, Brassens e uns amigos da terra natal meteram-se em diabruras com alguns pequenos roubos à mistura. Escandaleira e críticas duras. A coisa deu prisão e tudo. Mas o pai de Brassens deu-lhe uma lição de humanidade ao ir buscá-lo. Não fez de moralista, o velho pai. Garantiu-lhe amor e ajudou-o a ultrapassar o mau bocado. A história está retratada na canção “Les Quatre Bacheliers”.

CANÇÃO 0003 LES QUATRE BACHELIERS

4 Depois deste episódio juvenil, a reputação de Georges na cidadezinha natal, Sete, a 16 kms de Montpellier, não era nada boa. Decide partir para a centrípeta capital: voilá Paris, em Fevereiro de 1940. A II Guerra Mundial já começou. A capital de França não tardará a ser invadida pelo exército nazi.

CANÇÃO 0004 LA MAUVAISE REPUTATION

5 O que se segue na vida de Brassens não é nada fácil. Fica em casa de uma tia. Arranja emprego numa fábrica da Renault. Mas a fábrica é bombardeada e os nazis invadem a França. Brassens regressa a Sete. Mas em casa da tia havia um certo piano… Ao teclado, o jovem Georges tinha começado a tocar por ouvido. Por isso, volta para Paris e passa os dias, de sol a sol, na biblioteca, estudando os clássicos da poesia. Nessa altura, Brassens queria ser poeta. O estudo dos grandes poetas confere-lhe um domínio perfeito da rima e da harmonia poética.

CANÇÃO 0005 A PARIS DANS CHAQUE FAUBOURG

6 Em Março de 1943, outro acontecimento de extrema importância na vida de Brassens: é requisitado pelo Serviço de Trabalho Obrigatório dos nazis e vê-se forçado a trabalhar na Alemanha numa fábrica de motores de avião em Basdorf. Georges vai e consegue tempo para escrever narrativas e poesia. Quando lhe concedem um licença de dez dias, Brassens vai para França e já não volta. Mas foi na Alemanha que consegue amigos e admiradores para toda a vida.

CANÇÃO 0006 LES COPAINS D’ABORD

7 Brassens acolhe-se em casa dos amigos Jeanne e Marcel. Jeanne era vizinha dos primeiros tempos dele em Paris. Foi a sua primeira grande admiradora e talvez não só… A casa em que moram não tem gás, nem água, nem luz. Brassens, mesmo assim, ficou ali a morar até ao fim da Guerra e mais 22 anos! O desconforto não lhe faz impressão, antes pelo contrário. Georges não era nada dado a luxos, nem quando a carreira musical lhe rendeu bons proveitos.

CANÇÃO 0007 HEUREUX QUI COMME ULYSSE

8 Depois, vêm os tempos anarquistas de Brassens. Em casa de Jeanne, serve-se de um móvel como tambor, compondo canções só com a ajuda dessa percussão. Escreve textos satíricos para uma publicação anarca. Depois, sai do movimento e continua a compor incansavelmente canções que num futuro breve se tornarão famosas, tal como “Brave Margot”.

CANÇÃO 0008 BRAVE MARGOT

9 Brassens compra uma viola e aprende sozinho com uma teimosia admirável. Apresenta-se sem sucesso em alguns cabarets. Fica desiludido. Mas alguns amigos insistem e apresentam-no a Jacques Grello, cantor e gerente do cabaret Le Caveau de la Republique. Brassens toca e canta no cabaret, mas não se impõe. Quer desistir, mas dois amigos da mesma cidade natal, não permitem que isso aconteça. Levam-no à famosa cantora Patachou. Ela fica encantada. E obriga-o a continuar a cantar ao vivo até que o público lhe reconheça todo o valor. Foi assim que, em poucos meses, Brassens chegou à fama, à glória e ao futuro. Ei-lo aqui em duo com Patachou.

CANÇÃO 0009 MAMAN, PAPA

10 Brassens torna-se famoso, conhecido e respeitado em todo o mundo. Faz amizades com outros gigantes da canção francesa e mais celebridades de então, tais como Léo Ferré, Jacques Brel, Charles Trenet, Lino Ventura e René Fallet. Em 1958, Brassens compra um moinho e vai viver nele até quase ao fim dos seus dias. Em Novembro de 1980, Brassens é operado a um cancro. No verão de 1981, já muito doente, regressa à terra natal. Morre a 29 de Outubro de 1981 em casa de um médico amigo. Foi o corpo, ficaram as canções. Bravo, Georges!

CANÇÃO 0010 LA MAUVAISE HERBE

Antes, ou seja, entre as 22h e as 23h, Daniel Abrunheiro conta-lhe uma história na rubrica Mil e Duas Noites. A narrativa de hoje tem por título "As árvores" e é este o primeiro parágrafo:

"As árvores são mãos que saem da terra para oferecer fruta e para agarrar os pássaros. Depois, as árvores, tal como acontece com as pessoas, acabam por largar tudo. À noite, vivem outra vida, também como as pessoas. – Em que estás a pensar, Joaquim? – Perguntou Rosalina. – Estou só a olhar as árvores, Rosalina – respondeu o marido".

O programa começa às 20h. Por isso, entre as 20h e as 22h, há música em português, a rubrica Dia a Dia Cultural, e música do mundo para ouvir - sempre com a companhia de Daniel Abrunheiro que lhe vai contando pequenas histórias sobre cada uma das músicas escolhidas.

Anoiteça connosco!